terça-feira, 27 de março de 2012

Velha infância

Nem sempre vivi num mar de cinzas, tristeza e dor.
Eu não sabia o que era o amor, embora já tenha escutado muitas coisas sobre o assunto eu nunca amara, e este sentimento pouco me interessava.

Pra mim, o mundo era uma estrela de cinco pontas, as nuvens eram feitas de sonhos e o mar de lágrimas. Lembro que sempre perguntava:
-- Papai, as pessoas sonham muito né?
-- Sim, elas precisam de motivos para existir.
--- Papai, por que tem tanta gente triste no mundo?
--- Por que  às vezes as pessoas perdem seus sonhos
-- Papai, o que acontece naquela ponta ali?
-- Que ponta querida?
-- A da estrela, pai...
-- Ali, algumas pessoas acham seus motivos pra existir.

Eu acreditava que abraços curavam, que nada tinham fim e que o céu mudava de cor conforme o seu humor.
--- Papai, o senhor está doente?
--- Estou sim. Mas veja como o céu está bonito lá fora.
---Nós estamos tristes. Papai, eu posso fazer o senhor ficar melhor?
--- Claro que pode
--- Como?
--- Só me abrace querida.

Eu pensava que borboletas eram fadas, que o vento vinha brincar e que numa família tinham de haver semelhanças.
--- Querida, o que está fazendo?
-- Brincando com o vento pai.
-- Não se mexa. As fadas estão penteando seu cabelo!
--São muitas?
-- São.
-- Então agora eu sou a princesa das fadas, como a mamãe.
--- Sim, igualzinha a ela.

Lembro que eu pensava que as sombras da noite eram amigos que vinham me visitar; que o sol roubava sorrisos e que a lua era uma irmã querida.
--- Querida, venha, vai escurecer.
--- Sim, vamos... Pai, hoje você pega uma roupa bem bonita pra eu vestir?
--- Mas você já vai dormir
-- Sim, só que eu quero ficar bonita para as minhas visitas, pai
--- Só que as pessoas não vem depois que o sol se vai...
--- É por isso que elas vem, para poder sorrir.

Já tentei contar as estrelas do céu, já fui princesa de muitos castelos e já fiz do lençol o meu melhor escudo.Já encontrei cores, desenhei flores... Já amei ,  já me decepcionei.

  Já descobrí que o mundo é uma bola, que nuvens são feitas de água doce e o mar de salgada. Soube que borboletas já foram largatas, que o vento simplesmente existe e que no final ninguém é exatamente igual numa família. Disseram-me que o sol era feito de fogo, que as sombras eram só sombras, que a lua não passa de uma pedra e que o céu não tem vida.
                  Descobrí que abraços não curam...
                 ...Que lágrimas vem de dor...
                 E que um dia tudo tem fim.

Lara Sousa

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